quarta-feira, 21 de outubro de 2020

No meu acervo #01: coleção de fanzines do Metal Underground Brasileiro


Para começar as postagens da série No Meu Acervo, trago algo que sempre gostei muito de ler e faz parte da minha vida dentro do Metal Underground: os Fanzines.




Fanzines, ou simplesmente zines, são publicações elaboradas por apreciadores de um determinado assunto ou cultura, sejam eles amadores ou profissionais, geralmente de forma independente, por via impressa ou digital. A qualidade gráfica e o tipo da abordagem variam muito de publicação para publicação, e nelas o editor tem liberdade para explorar os temas de forma mais abrangente, dando espaço para nomes que geralmente não o teriam em meios especializados, nos quais os critérios muitas vezes obedecem a demandas comerciais. Várias edições que eu mostrarei aqui (de maneira resumida, pois a postagem será longa) são exemplos dessa vastidão.

Muita nostalgia na elaboração dessa postagem. Foi bastante tempo olhando e relendo todos esses excelentes trabalhos impressos. Não sei ao certo como tudo anda no cenário atual. Quase todos os que cheguei a ler encerraram as atividades ou migraram para a internet há muitos anos atrás.

(Porém... Já quase à conclusão da construção dessa postagem, recebi a ótima notícia de que um desses zines voltará a ser editado, e da mesma forma como aconteceu há 14 anos atrás, voltarei a fazer uma pequena colaboração nele! Aguardem...!)

Muitos editores tinham uma sensibilidade incrível e isso resultava na apresentação de tantas ótimas matérias, textos e poemas, que em meio a todos aqueles detalhes gráficos e artísticos me faziam viajar durante dias e mais dias de leitura. Era um fator adicional de grande relevância pra mim e que se somava perfeitamente bem a seções tradicionais como entrevistas, resenhas e biografias.

Mas vamos ao objetivo da postagem. Estou trazendo aqui 34 edições de 15 diferentes zines que conservo em meu pequeno acervo, e vou mostrar um pouco sobre cada uma delas. Vamos em frente!


📰📰📰


1. STAINCRAZY ZINE (SP), 13ª, 14ª e 15ª edições




Começo por um dos que eu mais gostava: o Staincrazy Zine, de Bauru/SP. Um dos zines de Metal mais antigos do Brasil, existia desde 1988, e após anos parado, voltou às atividades no início dos anos 2000. Foi aí que o conheci e adquiri essas três edições (uma delas eu ganhei, se não me engano). O editor era o batalhador Zeca, da STAINCRAZY DISTRO.

O zine era todo feito à base de colagem. Recortes de trechos de texto, de logos das bandas colocados sobre as fotos e contornos feitos a mão. Tinha muitas entrevistas; resenhas de demo tapes e CDs; flyers, e muitas bios com textos que ele mesmo escrevia divulgando as bandas. 


14ª edição

14ª edição

14ª edição


Apenas imaginem a trabalheira que dava até uma edição dessas ficar pronta. Valoroso aos extremos!

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2. WORLD DEMISE ZINE (RS), 4ª edição




O excelente World Demise Zine vinha da cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Era um zine extremamente bem editado, com várias ótimas entrevistas feitas com bandas de todo o país e também com algumas gringas, além de com outros zineiros. Pra citar alguns exemplos dessa quarta edição, tivemos a Recidivus (PE), Genocídio (SP), Dominus Praelii (PR) e Cathedral (Inglaterra).

Havia também resenhas de CDs full length e demos, letras traduzidas, pôster, e nesse número, um dos pontos de destaque pra mim foi o conto superbem escrito que veio no final, chamado "Deus".






Além de tudo essa edição ainda veio com a coletânea abaixo, trazendo faixas de seis excelentes bandas da cena nacional e uma da espanhola Sabatan.



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3. METAL INVADERS ZINE (BA), 7ª edição




Da cidade de Feira de Santana, na Bahia, vinha uma das mais bem editadas publicações e que está entre as que eu mais gostei de ter adquirido: o Metal Invaders Zine. De cara já me conquistou com essa capa e com os detalhes medievalescos em cada página. Uma edição extremamente caprichada.




O zine trouxe várias seções interessantes: textos sobre assuntos recorrentes na cena; curiosidades; letras e também nomes de bandas traduzidos; poesia; discografia comentada (nessa foi a do Candlemass 💜); pôster em ótima qualidade da Dominus Praelii, e algo que foi um dos maiores diferenciais: as palavras cruzadas. Isso tudo além de entrevistas e muitas resenhas de demos, CDs full length e outros zines.






Junto com essa edição adquiri também a primeira coletânea do zine, uma das minhas favoritas na época:



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4. THUNDERGOD ZINE (BA), 1ª edição




Depois do lançamento da sétima edição do MIZ comentada acima, dois de seus editores se desligaram dele e deram origem ao ThunderGod Zine, que passou a ter uma versão web também, que está ativa até os dias de hoje.

Como já era de se esperar, foi um zine igualmente bem editado, cheio de detalhes baseados na cultura nórdica em cada seção e ao longo de suas páginas. Também trouxe curiosidades, poesias, textos, letras traduzidas, e mais: conto, matéria sobre games (Castlevania 😍), resenha de filme, seção com opinião de colaboradores, ótimas entrevistas, resenhas de material de bandas e zines,  e as palavras cruzadas. Enfim, um trabalho excelente.






Assim como com o anterior, também adquiri a primeira coletânea que lançaram:



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5. METAL DISCHARGE ZINE (BA), 1ª a 4ª edições




Ainda em Feira de Santana temos o Metal Discharge Zine, do qual possuo quatro edições. Era um zine com conteúdo bem robusto, mais focado nas entrevistas, que incluíam bandas gringas também já no primeiro número; resenhas de demos, CDs e divulgação de bandas, distros e outros zines em geral. Foi passando por uma evolução gradual ao longo de seus lançamentos, chegando a uma diagramação muito superior nas últimas edições.


Metal Discharge Zine
1ª edição

4ª edição

4ª edição


As entrevistas sempre exploravam contexto musical e lírico das bandas, e a partir da segunda edição, o zine passou a trazer a seção Manifesto Underground, através da qual os leitores podiam expressar suas ideias a respeito de temas diversos. Na quarta edição por exemplo foi a vez do "radicalismo".


4ª edição

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6. TURVO ZINE (PE), 1ª a 4ª edições




Seguindo agora para terras pernambucanas, tenho aqui as quatro edições lançadas do excelente Turvo Zine, aqui do Hellcife, editado pelo amigo Tadeu Crow.  Trabalho totalmente datilografado e feito à base de colagens, cheio de detalhes e ilustrações criadas pelo próprio.


1ª edição


Ao folhear as páginas do zine, percebe-se de cara um viés literário e filosófico através das artes, das citações, dos textos presentes, poemas, letras traduzidas e um nível textual sempre muito elevado nas entrevistas e nas resenhas.


1ª edição

3ª edição

4ª edição

4ª edição

4ª edição

Para citar alguns exemplos, temos a seção Literatura Satânica e Cultura Trágica, que trouxe fragmentos do livro "Uma História do Diabo", de Robert Muchembled, publicados nos três primeiros números; matéria sobre o Death Metal na primeira edição; e matéria sobre a FAB na quarta edição. Além disso, todas eram sempre marcadas por um claro manifesto contra bandas nazi-fascistas dentro da cena, conforme demonstrado na inspiradíssima capa da terceira edição:



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7. MÁQUINA DO METAL ZINE (PE), 2ª a 6ª edições




Também em Pernambuco, vindo da cidade de Macaparana, temos uma publicação que pra mim foi uma das melhores já editadas no país: o Máquina do Metal Zine, produzido pelo também amigo Valterlir Mendes. Tenho aqui cinco edições.


2ª edição


O nível do zine era muito profissional. Um trabalho organizado, muito bem diagramado e com uma qualidade textual acima da média.


3ª edição


Entrevistas muito bem elaboradas, resenhas longas, bem detalhadas e totalmente imparciais; espaço para textos; comentários sobre assuntos inerentes à cena com participação de leitores; biografias de bandas clássicas nacionais, e várias matérias, como por exemplo a da história do Thrash Metal,  contida na quarta edição.


3ª edição

4ª edição


Não posso deixar de ressaltar também a ótima qualidade gráfica, com impressão a laser em preto e branco e algumas edições com capa colorida.

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8. METAL BLOOD MAGAZINE (DF), 13ª a 17ª edições




Essa é uma publicação que a maioria de vocês certamente deve conhecer: a Metal Blood Magazine, de Brasília (DF), editada pelo Antônio Rolldão. Possuo cinco edições.

Nem preciso comentar muito sobre a qualidade dela, pois sua difusão no cenário já fala por si só. Sempre foi bem profissional, mas sem muita pomposidade ou seções adicionais. Tinha maior foco nas ótimas entrevistas, nas bios e nas resenhas bem aprofundadas que nos apresentava.


13ª edição

15ª edição

17ª edição


Na 16ª edição foi inaugurada uma seção bem interessante, que até então eu não tinha visto em nenhum outro fanzine: a Bonded By Blood, em que duas bandas irmãs  entrevistavam uma a outra.


Seção Bonded By Blood na 16ª edição com as bandas
Recidivus e Anthropophagical Warfare


Além de tudo, a edição #16 veio com um CD live da banda Corpse Grinder, e a edição #17 veio com a coletânea Metal Sangrento, contendo 20 bandas de Thrash, Death e Black Metal nacionais.



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9. VISÃO UNDERGROUND ZINE (PI), 2ª e 3ª edições




Partindo para o estado do Piauí, tenho duas edições lá do comecinho do Visão Underground Zine, a segunda e a terceira.

O foco inicialmente eram as resenhas, as bios e as entrevistas. A segunda trouxe, além disso, uma história resumida do Hellhammer na contracapa.


2ª edição

3ª edição
3ª edição
Pesquisando, vi que o zine evoluiu muito, chegando a edições com versões em três idiomas, e lançou várias coletâneas ao longo dos anos. Até onde consegui saber, chegou ao décimo sexto número.

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10. METAL OF THE NATION ZINE (SP), 8ª, 9ª e 10ª edições




Seguindo, tenho três edições do Metal of the Nation, zine que tinha distribuição gratuita e vinha da cidade de Diadema, em SP. Era apoiado inclusive pela Century Media, num tempo em que grandes gravadoras tinham escritórios abertos no Brasil.


8ª edição


As três edições que eu recebi continham a história de uma banda clássica brasileira; uma a duas entrevistas; biografias escritas pelo próprio editor e colaboradores; resenhas de material de bandas e eventos; sorteios, e anúncios em geral.


9ª edição
10ª edição
10ª edição


E o Metal of The Nation não era só zine. Rolavam outras iniciativas, como programa de rádio e organização de eventos.

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11. BLACK ARROW ZINE (SP), 10ª edição




Na sequência trago a décima edição do Black Arrow Zine (antigo Morbid Imperium), da cidade de Embú, em SP.

O conteúdo era focado nas resenhas de demos, CDs full length e de eventos, sempre com textos bastante informativos; e nas entrevistas, com perguntas bem elaboradas que abordavam assuntos  recorrentes na cena da época.





Todos os envolvidos demonstravam um forte apoio ao Metal produzido em todo o país, e essa edição, por exemplo, reuniu nas entrevistas várias bandas de todas as nossas cinco regiões, dentre as quais posso citar o Anthropophagical Warfare (PE), Retaliatory (PA), Bullshit (GO), Mortifer Rage (MG) e Predator (RS).




Tudo isso somado a uma boa diagramação e qualidade gráfica, com capa impressa num papel especial.

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12. ANAITES ZINE (CE), 8ª edição




Chegando agora em Fortaleza, tenho a oitava edição do Anaites Zine, outra publicação bastante difundida no cenário nacional. A diagramação desse número merece um destaque, muito bem feita. Cada página trazia detalhes diferenciados que enchiam os olhos durante a leitura.






As entrevistas eram ótimas. Destaco aqui a da Erva Seca, que era um projeto do Panda Reis, baterista da Oligarquia. Além disso estavam presentes as tradicionais resenhas; bastante divulgação de outros trabalhos da cena; um belo poema intitulado Solitude Aeternus, de um autor brasileiro chamado Ronaldo Campelo; e uma pequena biografia do autor de Conan.

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13. GUERREIROS ZINEIROS ZINE (CE), 2ª edição




Idealizado pelo mesmo editor do Anaites Zine (Hioderman Zartan), o Guerreiros Zineiros surgiu com a interessante proposta de entrevistar outros editores de zines. A publicação contava com a mesma qualidade da anterior, tanto no conteúdo quanto na boa diagramação, cheia de detalhes gráficos.






Além das entrevistas a das resenhas, essa segunda edição trouxe também biografias de Nietzsche e do "poeta da morte", Augusto dos Anjos. Ao folhear as páginas ainda encontramos várias frases e manifestos de outros pensadores e de pessoas da cena.

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14. METAL CEARÁ (CE), 3ª edição




Também em Fortaleza temos o Metal Ceará, em sua terceira edição. Era uma publicação em formato de revista, com uma boa qualidade gráfica, que abrangia  a cena do Rock e do Metal local, mas também dando espaço para bandas de outros estados.







No conteúdo temos notícias, entrevistas, biografias, resenhas de material e eventos, pôster e um espaço chamado Voz Underground, que na ocasião trouxe um texto sobre a chegada da internet na cena Metal.

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15. COMANDO METAL ZINE (MS), 1ª edição




E pra finalizar, trago a primeira edição do Comando Metal Zine, da cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Foi um zine que eu estava bastante curiosa pra adquirir, pois até então não conhecia praticamente nada da cena do estado. Ele apresentou uma boa qualidade nessa primeira edição, tanto gráfica quanto textual, e bastante informação sobre a cena local, sem deixar de dar espaço para nomes de outros estados.






Estavam lá as tradicionais seções de resenhas de material e eventos, e as entrevistas, dentre as quais vou destacar a do Espectros Quasar e a do velho Leviaethan. Além disso, tivemos a seção adicional Álbum Comentado, em que algum colaborador falava sobre um álbum de sua preferência. 


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E foram esses os 15 zines. Essas edições foram, em sua maioria, lançadas no início dos anos 2000, época de muitas transformações com a popularização dos microcomputadores e difusão mais ampliada da internet, que era a grande novidade do momento. O surgimento de canais de comunicação com salas de bate-papo como o mirC, ICQ e posteriormente o MSN Messenger começavam a facilitar o contato entre as pessoas. Lan houses brotavam em todas as esquinas.

O trabalho dos fanzineiros estava se tornando mais prático, uma vez que em sua maioria eles passaram a editar suas publicações no computador.

O famigerado MP3 começava a ser difundido (quem esquece da batalha Metallica x Napster?). Bandas passavam a ter seus próprios sites, muitas utilizando aqueles famosos domínios como hpg.com.br, cjb.net, kit.net... E os primeiros webzines iam surgindo no país em meio a certa polêmica.

Era um grande prazer ter contato com tanta gente que se dedicava a produzir todo aquele material, tão rico, tão opulento, e fazia a informação circular. Alguns eu conheci pessoalmente, ainda tenho contato, e outros sei que ainda estão por aí, na batalha, com sites, produtoras, gravadoras e afins. Um salve!


O fôlego da poesia não acabou.
A criatividade ainda é exalada.
A arte de escrever ainda está viva.
Eis o império das palavras!
(se alguém souber quem é o autor dessas sábias palavras, por favor, avise!)


Até!

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