sábado, 12 de setembro de 2020

As paredes brancas e os pedaços perdidos da própria história


Essa postagem tinha como objetivo primordial anunciar uma nova seção que será iniciada aqui no Recinto, chamada No Meu Acervo, em que irei mostrar e falar sobre itens diversos que possuo ou coleciono já há bastante tempo... Mas acabou se tornando um relato.




Paredes Brancas


Hoje em dia infelizmente já não tenho mais muitos dos objetos com os quais possuía uma ligação exclusivamente afetiva. Muitos anos atrás passei por várias transformações em busca de tentar redescobrir a mim mesma, e no meio desses processos, desfiz-me de muitas coisas.

Olhava para as paredes, móveis, cadernos, e via suas superfícies cobertas por uma infinidade de pôsteres, recortes, panfletos, dentre outros itens que me caracterizavam como fazendo parte de um meio dentro do qual estava me deparando com tantas atitudes estúpidas, fazendo descobertas desagradáveis sobre pessoas que admirava, percebendo diferença no modo de se tratar um e outro, e eu já não tinha certeza se queria permanecer ali, no meio de tantos padrões e contradições.

Não apenas relacionadas a isso, gavetas abarrotadas e pilhas de velharias que provavelmente eu nunca mais usaria, como fitas k7 e cartas, também se acumulavam no local.

Isso tudo somado a mudanças de espaço, falta de espaço, surgimento de novas tecnologias, levaram-me a realizar várias "limpas" em que me autoinduzi a dar fim a tantas coisas que só depois me dei conta de que se tratavam, na verdade, de uma parte de mim e da minha história. Todo aquele emaranhado representava frações da minha alma que acabaram se perdendo em meio a poeira do tempo...




...Mas naqueles momentos, eu precisava me despir de quaisquer raízes ou influencias ideológicas para entender quem eu realmente era. Precisava distinguir o que era influenciado por fora do que vinha absolutamente de dentro. Então me cerquei de paredes brancas... Esvaziei gavetas... Descartei caixas. Tudo com a nítida sensação de que iria me arrepender, mas convicta de que precisava praticar aquele desapego. Por isso, terrivelmente, eu o fiz.

Pouquíssimas coisas escaparam daquela ação quase que criminosa... E o que restou para contar história, vai virar postagem por aqui.


Apenas, por favor, poupe-me de demonstrações forçadas de autodomínio comportamental, típicas de quem pretende ocultar suas prostrações para esbanjar uma falsa saúde mental. Recolha sua impecabilidade e desapareça daqui, pois esse espaço é para os imperfeitos.


"...Então todas as pessoas são também doentes mentais; porém, mais doentes ainda são, sem dúvida, aqueles que veem nos outros sinais de loucura que não veem em si mesmos."
(Liev Tolstói, em O Diabo)


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